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Cineasta 81


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Tirando férias


Temporariamente parado para descanso

Cacei no meu baú de textos e encontrei esse (já anteriormente postado no blog Culatra.wordpress.com), sobre o lugar onde estou passando meus dias de descanso. Ai vai.

Eu fui lá pra Vila Velha
Direto do Grajaú
Só pra ver a Madalena
E ouvir tambor de congo
Lá na barra do Jucu
Oh Madalena!

- Madalena, de Martinho da vila




A Barra do Jucu é uma cidadezinha do Espírito Santo localizada entre Guarapari e Vila Velha, conheço desde pequeno. Quando era menino eu ia para lá com a família, ficava na casa dos meus avós, construia castelos de areia na praia que fica pertinho para quem sai a pé. No caminho tem que atravessar uma ponte por onde passa o mangue que se imiscui na praia. No mangue vivem os carangueijos, perambulam o dia inteiro em busca de comida e escondem-se na toca profunda ao sinal de qualquer perigo. A gente vê se a praia tá boa pela altura da maré no mangue. Quando a água do mangue tá alta, não compensa ir a praia se for pra nadar porque fica fundo e perigoso, nos dias de chuva nem se fala, a praia fica matreira, te puxa que você nem vê. Mas quando o mangue mostra sua terra negra, e suas raízes, e os buracos dos caranguejos estão expostos, então é ótima hora pra ir a praia, porque você pode andar dentro dela, pegar umas boas ondas que te levam até a parte rasa de novo, e quando pega onda você pode vir gritando, comemorando, curtindo a água raspando no seu corpo, no seu cabelo, em alta velocidade. Você pode tentar entubar nas ondas, ir com uma mão para frente fazendo estilo, mas tem que saber desviar de algumas pranchas de surf que ficam no caminho, e também ter cuidado pra não levar um caixote, porque quando a onda te pega ela aproveita pra se vingar, e te embala no fundo do mar, te põe a rodar e te pressiona contra o chão, rala seu peito e faz você engolir areia.

Depois que sair da praia você toma um sol, enchendo o corpo de areia salgada, uma areia grossa, cheia de conchas que vagaram pelo mar até estacionarem por ali. Tem pouca gente na praia, na época de férias até que enche, mas não é das praias mais frequentadas do Espírito Santo, o pessoal prefere Guaraparí, Ponta da Fruta ou a Praia da Costa.

Quando tem carnaval é uma festa danada. O povo organiza os tambores de congo e ficam batucando noite e dia, a molecada e até os marmanjos vestem fantasias de monstros, tem homem que se veste de mulher, mulher que não se veste. Até quem não bebe enche a cara, as pessoas mais velham olham a vivacidade da janela, tem uns da igreja que acham ruim, fica um clima erótico por todo canto. O carnaval vai até bem tarde sobre as ruas de barro, e tem também ruas de pedras cuidadosamente colocadas, trabalho antigo. Depois do carnaval a turma volta a labuta, logo cedo, antes do sol raiar, os pescadores já estão preparando os barcos na praia da concha, que é uma praia que fica do lado da praia da barra, tem que subir um morrão enorme pra chegar lá. Eles preparam as redes e poem o barco no mar, passam a manhã pescando, faça chuva ou faça sol. Com os frutos do mar, os restaurantes preparam a melhor moqueca do Brasil, a capixaba.

A vida do Espírito Santo é uma vida relativamente tranquila, é verdade que tem muito crime por lá, mas o pessoal anda a vontade. Dentro dos ônibus tem gente que entra com prancha de surf, as mulheres andam de biquini, as pessoas não tem aquela pressa louca, a vida popular acontece principalmente em Vila Velha e Vitória, mas tem bairros novos surgindo, muitos deles, invasões. Em Vitória tem o porto onde estão ancorados os navios, e os moleques de rua ficam pulando na água poluída, às vezes procuram uma vítima não muito esperta para roubar sua bolsa, ou entram no ônibus para praticar um pouco da arte da punga. Vitória tem casas e prédios antigos, às vezes, do lado de uma casinha mixuruca tem um prédio de 20 andares, aqui em Brasília, cidade padronizada, quase antinatural, não se vê nada disso.

Voltando a Barra do Jucu, aquele lugar é bom para quem quer passar um tempo e lavar a alma, sentir calma do espírito praiano, contar com a sensação de que o mar está sempre por perto, batendo e rebatendo esperando por você. É bom pra ler um livro, é bom pra dormir calado, é bom pra repensar, é bom pra fazer amor, é bom pra viver tranquilo.

Arbitragem florida


Eis um caso de um árbitro pederasta.

Na década de 1980 e 90 uma flor brotava alegremente nos gramados verdejantes dos campos de futebol do Rio de Janeiro. Foi o árbitro Jorge Emiliano, mais conhecido como "Margarida". Ele apitou partidas de futebol feminino e masculino. Fez fama com seus trejeitos delicados e com seus "passos de gazela". Era muito rígido com as mulheres, chegou a agredir uma jogadora em campo, o caso virou escândalo nacional. A briga ocorreu por conta de um cartão amarelo e penalti que o Juiz Margarida marcou contra a uma jogadora de nome peculiar, e bem oportuno a ocasião, ela se chama Michael Jackson, (como do falecido cantor). Michael era habilidosa, consideravam-na a Pelé do futebol feminino, ela marcou o gol. As jogadoras do outro time reclamaram e Margarida deu "uma porrada no meio da cara" da jogadora Elaine, do time adversário. Elaine saiu com a boca sangrando e prestou queixas na polícia. Flagrado pelas câmeras de TV Margarida não teve como desmentir e afirmou: "A tecnologia moderna me mata!". Margarida chegou a ameaçar o marido de Elaine, que entrou em campo para defendê-la: "Se você entrar em campo eu te arrebento", berrou o juiz Margarida, e alertou "e tantas levarão (porrada) quantas forem necessárias".



Mas a desenvoltura corporal de uma bailarina era o ponto forte de Margarida, as atenções do jogo se voltavam para ele, e tornou-se "querido" nos campos do futebol brasileiros.





Margarida serviu de inspiração para Clesio Moreira do Santos, que imita alguns trejeitos de Margarida para chamar a atenção. O oportunismo rendeu a Clesio aparições na TV e uma candidatura a cargo público. O Margarida original era homossexual assumido e faleceu em 21 de janeiro de 1995.



Fontes
Youtube
http://outroladodanoticia.wordpress.com/2009/02/25/trecho-do-livro-sobre-michael-jackson-em-primeira-mao/

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Greve


Lá fora ouço uma greve.
Os protestam se levantam, mal compreendo o que dizem no megafone, mas posso ouvir os sons irritantes do apitos, da oradora enfurecida, dos trumpetes improvisados, da janela do décimo primeiro andar vejo as pessoas pequenas. Há várias faixas, pessoas com cartazes, e umas cinquenta pessoas. Há muitas cadeiras e grande parte das pessoas está sentada.
Um sono toma conta de mim, levantei cedo quando queria ficar na cama. Hoje é meu último dia como estagiário, daqui para frente nunca mais serei estagiário em nada, me formei em jornalismo há poucos dias, isso significa que daqui para frente a situação é nova: Desemprego em rumo ao emprego. Trabalho de verdade. Patrões de ferro, apesar de que prefiro trabalhar por minha conta, mas enquanto não descubro uma maneira de ganhar dinheiro, trabalho assalariado. E aí vem a insatisfação com as condições de trabalho, conversinhas de corredor, maus tratos com os funcionários, e meu deus, eu estarei um dia em uma greve? Clamando pelos meus direitos?
"Nós queremos trabalhar", diz o grevista. O Brasil está em crise, novos podres do presidente do Senado Sarney surgem na mídia, o Senado está em crise, e o tempo não é dos melhores. Eu tenho sono, quero dormir. Fico relembrando dos trechos de um livro do Jorge Amado, Jubiabá. No livro, o negro Antônio Balduíno fora moleque de rua, fez amor com mulheres no cais (onde alguns de seus amigos suicidaram-se por não aguentar a dura vida de proletários), escapara ferozmente de uma morte em meio aos arbustos, fora boxeador, funcionário de um circo, sempre lembrando do rosto de seu primeiro amor, uma mulher branca, filha de seu patrão. Um amor puro. Muitas páginas de história, e Antônio Balduíno tornara-se também um grevista. O escritor via a beleza daquela greve, aquele monte de gente aglomerada em torno de um objetivo só.
A greve de hoje é pequena, pouca gente, e tudo o que eu tenho aqui comigo, do alto do décimo primeiro andar é uma apatia sonolenta.
Esse papel amassado vou jogar pela janela, vou observa-lo voando, caindo em direção ao térreo, quem sabe acerte a cabeça de um desses baderneiros que estão atrapalhando meu sono.


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Elaborado em parceria por Oinam e Cineasta 81.